5:45 AM

Maquinações

Um dos últimos dias de uma era punha-se sobre o horizonte de Allar, as searas douradas de trigo balançavam com uma suave e fresca brisa que anunciava a chegada da noite, as muralhas brancas de Allar reflectiam a luz minguante do dia que transformava o vasto azul num tom rosa que irrompia em chamas assim que se encontrava com o dourado sol que se punha. No interior da cidade, os mercadores preparavam-se para fechar para a noite, nas tabernas e estalagens acendiam-se tochas e pequenos candeeiros a óleo que alumiavam os interiores escuros com a luz solar desvanecendo e todas as pessoas que levavam a sua vida atarefada na cidade e campos nos arredores, voltavam para as suas casas na província ou na zona residencial da cidade. Mas no extremo ocidente da cidade muitos cidadãos encontravam-se com pouca vontade de recuar para suas casas. Pois para alem da pequena paliçada que se erguia após um pequeno jardim da cidade, filhos, netos, sobrinhos e até alguns pais encontravam-se no campo poeirento da academia de Allar, centenas de novos recrutas estavam prontos para entrar no fiel exercito em serviço do rei.
Todos eles em sentido, sem mexer um único músculo do corpo, seguiam os paços do capitão, cobertos com armaduras prateadas e capas azuis de seda. As armaduras iram enferrujar com o tempo e as capas seriam manchadas com sangue, mas a coragem não seria destruída, a honra não seria manchada e mesmo com escudos partidos, armaduras enferrujadas e as capas banhadas no seu próprio sangue, o seu ultimo suspiro seria dado a defender a sua amada terra. E assim dizia o capitão a estes novos soldados, como a todos os outros recrutas que já tinham passado por aquele empoeirado pátio. Ele sabia que muitos deles morreriam cedo, mas não tinha a noção que os tempos que se aproximavam iriam trazer essas mortes ainda mais perto. No entanto, desde o início do reino dos homens, havia um velho ditado: “A diferença de muitos encontra-se somente num único individuo.”
O nome deste indivíduo era Alexandra. Como o resto dos soldados ela encontrava-se estática como se estivesse a olhar para o vazio, os seus cabelos loiros ondulavam lentamente com a brisa que tinha chegado e as suas bochechas rosavam ligeiramente com o frio, mas os seus olhos pareciam duas chamas azuis que a mantinham quente com o orgulho que tinha em estar naquele grupo.
A noite acaba por cair e a cerimonia acabar. Os soldados voltam para dentro da messe onde tomam a sua última refeição como recrutas e como em todos os outros dias, o caos instala-se. Risos, murmúrios, o som dos talheres a embater violentamente nos pratos e aquele incessante som de dentes a mastigar e lábios a sorver.
Tentando passar por entre as mesas com os seus companheiros sentados, nunca ela tinha tido tanta dificuldade pois normalmente ninguém teria couraças vestidas, mas com dificuldade ela lá se aproximava do seu banco que tinha usado desde que tinha entrado para a academia.

- Alex, apanha.

Grita uma figura do local de onde a Alexandra tentava chegar. E ela estende a mão para apanhar uma caneca em meio voo. Com uma mão firme na caneca ela dá um golo e com a dificuldade tentando passar por entre as armaduras e tentando não sujar a sua capa senta-se no seu lugar habitual. Á sua frente estava um homem alto, mesmo sentado dava um ar do seu tamanho, tinha cabelo preto, raso como barba acabada de fazer, possuía uma viçosa pêra que esfregava sempre que estava mais pensativo, os seus olhos castanhos encontravam-se como se estivessem dentro de duas covas que se ele baixasse a sua cabeça demais deixavam-se de ver. Á sua esquerda estava uma rapariga com uma longa trança ruiva, e espalhada por ela varias pequenas facas, a couraça fazia-a parecer um pouco mais forte do que era, apesar de ter uma cara algo para o redonda e de criança, as feições do seu corpo eram bastante franzinas, mas não demais pois manejava uma lança como ninguém, tinha grandes olhos verdes que eram constantemente estorvados pelo cabelo alaranjado que ela não conseguia prender bem, a sua pele era clara mostrando uma grande quantidade de sardas nas suas bochechas. E finalmente na no lado oposto à Alexandra, estava um rapaz que devia estar nos seus 18 anos mas já tinha ar de ser bastante mais velho, este tinha sempre uma sombra de barba por fazer e o seu cabelo castanho claro tinha quase o mesmo tamanho que o da Alexandra, tinha uma pequena cicatriz no queixo e este rapaz tinha sido quem lançou a caneca contra a Alexandra a quem ela ao sentar-se, com a mão que agarrava na caneca aponta-lhe o indicador e com um sorriso diz-lhe:

- Só á primeira é que me acertastes com isto na cabeça, nem sei porque tentas.
- Oh, não podes culpar um rapaz por tentar. – Responde-lhe.
- Ás vezes penso que me odeias Eirvan.
- Bem minha cara eu...
- Foi uma aposta Alexandra. – Interrompe a rapariga ruiva que dava pelo nome de Cali.
- O que queres dizer com isso? – Pergunta a Alexandra franzindo o subreolho.
- Eu apostei com ele e ele quer ganhar á força.
- Bem, não é bem assim. – Discordou o Eirvan levantando o garfo e apontando para Cali, normalmente não teriam mais que uma colher e uma taça mas sendo o ultimo dia, era uma ocasião especial. – A aposta foi a seguinte: depois de, naquele bem afamado dia em que a tua cabeça interceptou a caneca que era para o Victor, a nossa Cali aqui apostou que eu não conseguia acertar-te outra vez na mesma situação.
- E está visto que eu ganhei. – Continua a ruiva.
- Vocês... – Repreende a Alexandra.
- Tens de ver Alex. – Entrevem o Victor, que até ao momento tinha estado calado apenas a beber a sua bem dita cerveja. – Eles divertiram-se, a Cali ganhou algum dinheiro extra e tu tens menos hipóteses de apanhar com uma flecha na cara.

Para alguém com um aspecto tão rude como o de Victor, muitas vezes ele conseguia ser aquele que mantinha a calma e a ordem no grupo. Dizia sempre o que era preciso, na altura certa, nunca metia-se em problemas e tinha sempre um sorriso afável na sua cara.
Contaminada como sempre por esse sorriso, a Alexandra recupera um bom humor que era algo estranho nela.

- Têm sorte do Victor estar aqui. – Brinca Alexandra.
- Noutras noticias: já viram isto? Último dia é que nos alimentam carne. – Diz a Cali querendo mudar rapidamente de assunto, mas ao mesmo tempo estendendo a sua mão para Eirvan pagar o que lhe deve.
- Sempre melhor que aquela maldita papa que comíamos todos os dias – Victor resmunga quase por entre dentes serrados, ao mesmo tempo que Eirvan pagava. – Todos os dias, comer aquilo tira a um homem o seu vigor.

A Alexandra deixa escapar uma pequena risada que cobria as duas situações: tanto o queixume de Victor, como a pequena indisposição que tinha causado ao seu amigo. No entanto seguindo aquele momento de boa disposição os seus olhos azuis como o mais brilhante dos céus, ficam pasmado a olhar para o seu prato em seguida a ter feito o primeiro corte na carne. Um estranho arrepio apoderou-se dela observando a carne que não tinha sido pouco mais que aquecida e o seu carmim espalhava-se pelo prato, com um hipnotizaste terror ela elevava o pedaço acabado de cortar a linha do seu olhar, entretanto, os seus companheiros começavam a notar na distancia que Alexandra estava a ter da realidade, mas nada disseram, pois sabiam que apesar da sua personalidade activa e fervilhante havia nela um lado que implorava por uma calma e sossego que ela nunca poderia dar e dessa condição surgiam os seus momentos de reflexão.

- Já viram o nosso futuro? – Pergunta ela rodando apenas o garfo, mas não obtendo resposta dos seus companheiros que apesar do silêncio estavam atentos a todos os seus pequenos movimentos. É então que poisando o garfo no prato e olhando para os três continuou. – Sangue, quer seja do nosso inimigo, quer seja do nosso. Vai acabar tudo em sangue.

Com estas palavras ditas, todos eles sentem um pequeno arrepio pela espinha. Estas tão destinadas premonições, causariam sempre má disposição em qualquer um excluindo os mais veteranos, valentes e corajosos soldados. Apesar de nenhum deles demonstrar o contrario a verdade é que excluindo Victor, nenhum antes tinha feito outro homem sangrar e morrer e o dia da primeira morte aproximava-se.

Mesmo assim, não querendo o momento estragado por parvoeiras do futuro, Eirvan começou numa berraria sem sentido a que ela respondeu como um sorriso nos lábios, fazendo com que essas crises se esquecessem e que tudo voltasse á calma e descontracção daquela que seria a primeira noite como soldados.

No entanto, continuando para este do campo, erguia-se o grande castelo de Allar os seus torreões imponentes nunca tinham tombado e tinham sempre defendido as suas pessoas de todo o perigo. No interior o Rei Iaden – não menos majestoso que o seu imponente castelo – sentava-se no seu trono, vestido com um delicado vestido de seda, digno de apenas o mais majestoso dos Reis, segurando com a sua mão na espada dos reis, símbolo da sua nobre ascendência e com a outra passava com os dedos nos contornes da coroa que descansava – ou talvez quem descansava era ele próprio do seu peso – num dos braços do trono. Apesar de que, com coroa ou sem coroa o peso do reino continuava a cair-lhe sobre os ombros e à sua volta, mercadores, magos, nobres e outras pessoas importunavam-no com os seus mesquinhos problemas.

- Senhor, rogo-vos que apele o nosso pedido, a grande praça anda a ser cada vez mais vandalisada. – Queixava-se um mercador.
- Isso, não é importante neste momento. – Gritava um nobre do Este. – Ogs levantam-se perto de Dortza e a cidade irá precisar defesas urgentemente majestade.
- Mas ainda não precisa e de certeza que os Orcs se livraram dessas pestes antes que se espalhe para alem do nosso território. – Respondia-lhe um velho que tinha tanto de sábio como sovina. – Sua altíssima realz...
- Silencio! – Ordena o Rei já com a sua voz soante como um rugido de um trovão numa enorme tempestade e algo enervado continuou. – Meus caros senhores, as vossas súplicas não estão a ser ignoradas e asseguro-vos que os seus problemas serão resolvidos prontamente. A mão de Viteus é longa e benevolente, mas outros assuntos requerem a sua atenção neste momento. Agora, deixem-me, pois as vossas súplicas, já não estou disposto a ouvir.

Incomodados e com a sensação que os seus problemas iriam persistir, mas temível era a voz do Rei, não tão temível como a sua fúria e disso todos os presentes sabiam-no bem. Então com vénias e toda a cortesia, abandonam o Rei no seu aposento.

Minutos depois detrás de umas cortinas laterais ao trono, uma figura encurvada e bastante decrépita mostra-se á luz ténue das tochas que iluminavam a sala de trono, era um homem magro que um dia fora alto, mas as suas costas tinham indo encurvado cada vez mais ao longo da idade dando-lhe uma enorme corcunda, tinha um nariz pontiagudo, um cabelo grisalho mal tratado e uns olhos que mostravam nada para alem de um grande e vivo fogo de uma ambição que iria acabar por o consumir, andava lentamente sobre um cajado que se fazia ouvir á distancia. Ao chegar perto do rei colocou a sua mão enrugada em cima da de Iaden com uma certa ternura quase fraternal, mas era algo mais que isso era uma divida de á muito tempo que nunca chegaria a ser paga e então com a sua voz rouca e perigosa como o assobiar de uma cascavel perguntou-lhe:

- Problemas com o reino jovem príncipe.
- Não ouvia isso á muito tempo. – Respondeu-lhe o Rei já com a calma restaurada.
- Já se passaram anos e não é já um príncipe, mas sim um valente Rei.
- Pára com esse silvo criatura viperina! – Apesar de parecer pejorativo, não era nada mais que um insulto de amigo. – E diz-me, como está a nossa menina?
- Bela, jovem e viva. – Respondeu a víbora destapando por debaixo do seu manto negro uma esfera cristalina que mostrava no seu interior uma rapariga vestida em couraça de soldado, de pele tão dourada como o cabelo e em seus olhos a imensidão de um oceano ainda desconhecido para muitos, que brilhava com a ignorância do futuro para alem do sangue.



Escrito por Vargtid

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January 2007
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