9:30 AM

Maquinações

Observando a jovem rapariga o Rei franziu a sobrancelha, para alem de não conseguir imaginar que uma rapariga tão simples albergasse tanto poder, também surgia um tremendo fascínio pela sua beleza. Não era como todas as outras aves enfeitadas, quase sufocando em cosméticos, escondendo todos os seus defeitos e mostrando a sua plumagem para conseguir uma ascensão de poder à sua família, que deambulavam pela corte dos nobres – especialmente focado neste assunto também devido aos mexericos do povo pelo facto do Rei mostrar uma certa falta de espírito em arranjar um sucessor – tamanha beleza e fogo em tão simples criatura, relembrava-o das suas origens e por entre pensamentos nublados, poucas palavras conseguiu proferir.

- Filha de camponeses…?
- Sim. – Confirmou o seu velho e nefasto amigo. – a sua mãe morreu á nascença, acredito que a dadiva de Dária tenha passado da mãe para a filha no momento que ela pereceu.
- Estou a ver…

O Rei permaneceu pensativo continuando a passar os seus dedos incessantemente pela coroa e o bruxo a seu lado começou a dilacerar o olhar de Iaden tentando perceber a razão que perturbava tanto o seu sócio conspirador. E apesar de não conseguir compreender o que o Rei pensava achou melhor entrevir, qualquer deslize poderia desmoronar o seu cuidadosamente planeado estratagema.

- É de tremenda importância que ela seja mantida fora de qualquer perigo para o nosso plano se manter.
- Tens razão, com as fronteiras ameaçadas como estão é mais que certo que a qualquer altura estes recrutas sejam requisitados pelos generais para a defesa. Mas depois trataremos disso… – o Rei levantou-se colocando a coroa em sua cabeça, a espada na sua bainha e continuou com um tom irónico – hoje ainda tenho de ir agraciar os nobres com a minha presença no banquete.

O bruxo solta uma gargalhada gélida e curta voltando a desaparecer por entre as cortinas deixando o Rei sozinho na grande sala de trono. Este, soltou um grande suspiro com uma certa fúria pois estes serões repletos de etiqueta como de falsidades nunca acabavam sem antes ele possuir uma forte dor de cabeça e acabando por muitas vezes ausentar-se, desculpando-se com assuntos pendentes ou até mesmo indisposição, no entanto teria de sofrer um pouco essas cortesias pois como rei havia obrigações a cumprir. Hesitante, o Rei sai da sala de trono e é acompanhado por dois guardas, que se encontravam á porta, pelos corredores frios do castelo. Por fim os dois guardas abrem as portas do grande salão e o Rei entra para se dedicar ás fúteis necessidades da corte.

A noite já se tinha ocupado o seu lugar e fora do castelo e longe de todos os sons de festa e regozijo, iluminado apenas pela luz da lua e poucas velas, o campo de soldados de Allar já só tinha um punhado de verdes soldados desorganizados que tratavam de seus diversos e banais problemas.

A Alexandra estava numa das várias pequenas casas do campo a afiar as suas armas e por pedidos de outros, por serem preguiçosos ou por estarem a efectuar outras tarefas não o podiam fazer eles próprios, ela tinha encarregando-se também de suas armas.

Enquanto o esmeril rodava, a lamina descansava sobre ela fazendo as faíscas saltar, os seus olhos perdiam-se nos pequenos clarões e ela pensava no seu futuro, apesar de ser uma rapariga forte ela temia sempre de algo que ela não conseguisse lutar contra, algo que a enfraquecesse. E enervava-a, que ao fim deste tempo todo de treino ela começava a ter estas dúvidas.

- Ei Alex. – Grita uma voz da pessoa que abria a porta.
- Olá Cali – responde a Alexandra reconhecendo-a logo pela voz e também pela franja laranja e selvagem que se recusava a permanecer entrançada. – Viestes confirmar se eu trabalhava?
- Não, só vim fazer-te companhia, visto que nenhum dos rapazes se digna a faze-lo. – Ela solta uma pequena gargalhada de seguida, dando á Alexandra uma melhor percepção do que a companhia dela indicava.
- Oh boa, qual foi desta vez Cali?
- O que é que tu estás ai a falar? – Disfarça a Cali com a sua cara a adquirir um tom vermelho.

A Alexandra trocou de arma e continuou a afiar, enquanto mandava um sorriso maldoso á Cali que corava cada vez mais. Por mais que qualquer um tentasse o olhar de Alexandra fazia sempre uma pessoa ceder a qualquer pergunta, mas mesmo nesta altura ela teve duvidas se a resposta da sua amiga era verdadeira ou não.

- Chama-me parva, mas ás vezes desejava ir a um baile da corte, estar com homens bonitos e elegantes, ser cortejada essas coisas que uma rapariga deseja.

Soltando um enorme riso a Alexandra deixa-se cair do banco onde afiava o equipamento, riso que é rapidamente cortado pela dor que ela sente ao bater com a cabeça no chão, mas mesmo assim continua com um sorriso, algo sofrido, enquanto que a Cali metia a mão em frente da cara, tentando ocultar também o seu sorriso.

- É o Eirvan não é? – Ela fica um certo tempo no chão a olhar para a Cali mas encontra que a resposta em sua cara era muito obvia. - Eu compreendo, acredita que sim, ele é engraçado, bonito, forte, independente e sem esquecer da linhagem nobre e só não está cheio de raparigas atrás dele porque nunca foi a um único baile do seu pai. Acho que devias aproveitar.

A Cali fica em silencio, ardendo por dentro e ao mesmo tempo sentido calafrios a percorreram-lhe o corpo, não só por o que a Alexandra disse estar certo, mas por parecer que ela lhe tinha lido a mente. Apesar de não conhecê-la á tanto tempo como Eirvan ou o Victor, a Cali já tinha ganho uma afinidade por ela, no entanto as vezes a Alexandra acabava por conseguir assusta-la. Acabando de afiar as armas, a Alexandra pegou numa espada e ergueu-a em direcção da Cali.

- É a espada dele. Levas tu ou levo eu?

Ela passou da linha da porta e pôs a mão por cima da de Alexandra ficando também a segurar o cabo da espada, os seus olhos cruzaram-se e naquele momento ambas tentavam perceber o que a outra pensava. Talvez fosse pela suave aragem do ar nocturno ou bela iluminação lunar mas naquele momento algo despertou fazendo a Cali largar o cabo e responder a Alexandra.

- Leva-o tu e fica descansada, eu entrego o resto das armas.

Puxando a franja para trás a Cali agarrou nos braços da Alexandra, ajudando-a a levantar-se, quase perdendo o equilíbrio a Alexandra cai em cima do corpo da sua amiga que a segura num forte abraço suspirando-lhe ao ouvido.

- Por favor, não digas nada estúpido.

Ambas sorriram e prosseguiram os seus caminhos, a loira pegou naquela única espada e levou-a ao seu dono, enquanto a rapariga de cabelo rubro começava a arrumar as armas.

Encontrando o Eirvan no seu local habitual a Alexandra aproxima-se oferecendo-lhe o cabo da espada. Ele pega nela e observa a lamina passando ao mesmo tempo a mão por ela.

- Fizestes um bom trabalho miúda.
- Não fiz mais que a minha obrigação... – Ela faz uma pequena pausa virando-lhe as costas e respondendo-lhe enquanto o observava por cima do ombro. -... Miúdo.

Eirvan soltou uma grande gargalhada, fazendo em seguida sinal para a Alexandra se sentar ao seu lado e conforme ela sorriu e acenou com a cabeça ele não pode deixar de reparar que com o luar a bater-lhe no rosto, o azul dos seus olhos parecia algo irreal, brilhantes com o tom de dois azuis irmãos sóis. Ele abana a cabeça e volta a olhar para ela, esse brilho já tinha passado mas já não era a primeira vez que durante a noite ele sentia ou via algo estranho na presença dela.

- O que queres de mim. – Corta a Alexandra.
- Nada, apenas pensei que quisesses falar um pouco.
- Parece que muitas pessoas querem falar comigo hoje.
- O pequeno discurso que destes ao jantar tocou-nos Alex. – Constatou Eirvan. – Tens razão.
- No quê? – Perguntou intrigada.
- Nós somos soldados agora e qualquer dia podemos estar no lado errado de uma lança...
- Oh Eirvan, de todas as pessoas, tu és a que eu menos esperava que fosse falar disso!
- Por favor, não me interrompas. – Disse ele sorrindo com a exclamação da agora guerreira. – Eu só te queria dizer que, aconteça o que acontecer podes contar com a minha amizade. Só minha não, porque aposto que a ruivinha e o Victor concordariam comigo.
- Eu sei, nós sempre fomos muito juntos. Mas, falando em ruivinha…

Eirvan fica um pouco tenso, assim que a Alexandra decidiu puxar o tema, mostrando que pelo meio daquelas brincadeiras e um curioso ódio, eles tinham escondido algo mais profundo. E assim, a conversa estende-se durante a noite, sobre o treino, as amizades e sobre algo mais intenso.

No entanto, de volta á sala de banquete e no meio de frutas e carnes exóticas, por entre serviços de mesa caros e requintados, por entre bons modos, gente bonita e refinado ambiente, o Rei perdia-se por entre conversas que já tinha escutado vezes sem conta, ditas por um ou outro nobre e até pelos mesmos repetidamente. Alguns mencionava mos bandidos que empestavam as terras, um maior numero queixava-se dos perigos nas fronteiras a este e a norte e como se não bastasse a inquietação em relação á ameaça desconhecida do norte, um assunto antigo voltava: o medo que os nobres tinham das defesas de Norwin, que ao contrario do resto do reino que tinha nascido por expansão, os habitantes do norte tinham sido anexados por um antigo rei e eles nunca tinham suscitado grande confiança em relação aos seus compatriotas. Mas os piores queixumes, se bem que um pouco dissimilados em conversas banais, eram o facto de o rei ainda não ter dado um herdeiro para a coroa de Allar e sempre que surgia esse tema, o nobre em questão aconselhava uma filha sua como óptima pretendente. Estas conversas eram as que mais provocavam inquietação e fúria no Rei, mas como bom sobrano e anfitrião, ressentia esses sentimentos para si próprio e respondia com toda a sua graça tentando sempre não se comprometer.

Foi no meio desta discussão que um nobre, que já tinha caído nas boas graças do rei devido á sua bravura na campanha militar que o rei tinha levado a cabo, surgiu com um tema que o rei a principio temeu, mas como era chegado a ele, deu-lhe o beneficio da duvida e assim surgiu a conversa:

- Peço-lhe mil perdões majestade mas...
- De todas as pessoas que conheço Conde Rawen, é a ultima que eu consigo ver a usar cortesias. – Interrompeu o Rei. – Salte logo para o assunto.

- Pois bem, como já foi informado até pelo meu próprio convite, daqui a dois dias a minha filha fará 16 anos, idade para ser cortejada pelos nobres.

O Rei começou a temer a o rumo da conversa mas o seu temor desvaneceu conforme a o conde contínuo.

- Agora, eu tenho a noção que a minha filha, como a posição que ela garante, para alem de pela sua enorme beleza, é muito cobiçada por várias pessoas e por isso venho pedir-lhe um favor.
- Continue...
- Venho pedir se pode dispensar alguém da sua guarda para servir de guarda-costas á minha filha.
- Acho que sei da pessoa ideal. – Disse o Rei esfregando a sua curta barba após a ponderar um pouco.

Mais tarde quando todos tinham abandonado o castelo, o Rei fez planos com o seu conselheiro para os seus próximos passos. Já tinham encontrado a segurança que necessitavam para o seu objecto tão precioso e para Iaden teria algo mais preparado sem o conhecimento do seu chamado, amigo.


Fim do primeiro capitulo


Escrito por Vargtid

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