2:55 PM A alvorada anunciava-se com os primeiros raios de sol a trespassar timidamente as copas das árvores, todos os trabalhadores e mercadores espalhavam-se pelos recantos da praça. Mercadores do reino do sul traziam seus produtos exóticos, os elfos do norte vendiam os seus produtos mágicos e os poucos mercadores orcs vendiam as mais belas peles e saborosas carnes dos mais bem tratados animais de criação. Os cheiros misturavam-se com o fresco ar da manhã criando um aroma embriagador que envenena todas as mulheres e moças com uma enorme ansiedade por comprar algo que fizesse-las sentir tão bem. Os mexericos também não faltavam, desde os casamentos dos nobres, até ás movimentações do exército e alguns receios, misturados com fantasia, do misterioso norte. Mas havia um evento que estava na boca de todos, desde homens na taberna a terem as suas conversas, às coscuvilheiras habituais a gritarem de casa para casa deixando a localidade toda a saber, ou até as mulheres nas compras a falar com suas filhas e amigas e também nas bocas de alguns bandidos, que não tendo muito mais para falar, ou porque planeavam algo importante para a noite em questão. E essa era a noite que chegaria no próximo dia, noite em que a filha dos condes de Allar faria o seu decimo sexto aniversario e tal acontecimento significava que as ruas se encheriam de perfumes, que tanto belas donzelas e outras não tão belas como mais ou menos requintados cavalheiros encheriam as ruas, o vinho iria fluir abundantemente, as refeições seriam constantemente servidas e no desejo de muitas caras escondidas em becos escuros e tapadas por entre a multidão, de que a guarda da cidade se desleixasse, para nem que fosse por um instante, o crime aumentar. Mas desenganem-se aqueles que queriam criar caos na pacifica cidade, o Rei e o Conde tinham assegurando-se que não haveria distúrbios, de qualquer tipo, nem causados por bandidos nem por nobres atrevidos e esta segunda tinha facilitado dois planos completamente distintos e um terceiro que nenhum dos conspiradores iniciais nunca sonhariam. Como previsto, o início do seu plano começou a decorrer como tinham planeado. O Rei entregou uma carta a um dos seus mensageiros com cuidadas instruções para o mestre de armas para ele escolher de entre os soldados, que tinham passado pelo seu treino, um para guarda-costas para a filha dos condes desta cidade, confiante que a sua protegida seria escolhida para tão enorme honra. E assim sucedeu, o mensageiro, fogoso por mostrar o seu excelente desempenho entregou prontamente a mensagem ainda o relógio da praça de mercado, não apontara para as oitos horas. O mestre de armas leu o pedido atentamente e rapidamente decidiu quem iria mandar, como os dois conspiradores tinham previsto a Alexandra tinha sido escolhida. A notícia foi recebida com alguma apreensão por parte dela, mas os seus companheiros rapidamente mostraram uma satisfação enorme e alguma inveja no facto de não ter sido um deles o escolhido. Mas um dos soldados nota no incómodo da escolhida e apesar de só terem falado poucas vezes ele tenta a sua sorte. - Porque é que não me surpreende que tu estejas apreensiva? O pouco estimulo que a Alexandra tinha em relação ao seu primeiro trabalho é deitado por terra conforme o Kolle profere aquelas ultimas palavras. Como se não chegasse a hesitação que ela tinha, ela ainda iria servir uma menina mimada que, se não soubesse ou estivesse habituada a guarda-costas ainda a trataria como qualquer outra criada o que era uma perspectiva bastante desagradável para a Alexandra. Mas a palavra do Rei era ordem e negar este pedido, tão honrado, como os seus colegas diziam, nunca deveria acontecer. E então, com a cabeça pesada e algo contrariada a Alexandra abandona os seus companheiros pela primeira vez. Ela abre o portão da paliçada e olha em sua volta, à quatro anos que ela não pisava a calçada das estradas de Allar – sem ser em marcha ou para fazer algum treino no exterior – a sensação era libertadora, pela primeira vez ela sentia a plenitude de tudo o que rodeava o campo. Pessoas a andar por todos os lados, os aromas, os sons, uma ou outra carroça que passava por perto, as crianças a fazer as suas brincadeiras, tudo isto invadia-a dessa nova sensação que não sentia desde que começou o seu treino. Mas quando o portão fecha atrás de si, um ligeiro peso cai em seu coração e pela primeira vez sentiu o verdadeiro peso do pequeno ritual de passagem que ela tinha sofrido. Caminhando pelas ruas cheias com uma espada na cintura, uma lança no ombro, um escudo nas costas e o seu cabelo com um tom peculiar de amarelo a balançar no ar – cabelo este que mais fazia lembrar o dos piratas que habitavam as ilhas do sul – ela podia ser confundida com um dos muitos mercenários que procuravam trabalho nesta terra, se não fosse pela majestosa couraça de Allar e a bela capa azul com a bandeira bordada no seu extremo. Seguindo as suas ordens ela dirigiu-se á entrada do grande palácio dos Condes, lá, entregou a um dos guardas que se encontrava no portão o pergaminho com a marca do Rei, que após observar com cuidado pede á guerreira para aguardar, enquanto ele desaparece pela a porta de entrada do palácio. Passado uns minutos de espera, o guarda volta a aparecer e dá sinal para a Alexandra o seguir. Dentro do palácio ela podia observar com todo o detalhe os corredores por onde passavam, o chão era feito de madeira bem encerada, tapetes feitos pelos mais dotados artesãos eram coloridos e com vários delicados padrões, por todos os corredores haviam várias plantas em jarras de porcelana pintadas com detalhes que ela nunca antes tinha visto e pelas janelas entrava toda a luz dourada do sol quente da manhã. A sua caminhada pára assim que chegam a uma passagem estreita tapada por vários mantos de seda que não deixava ver o seu interior. O guarda ordenou á Alexandra que entrasse e ficou de plantão à entrada enquanto ela continuou por aquela passagem, as cortinas e mantos não paravam de se intrometer á sua frente e ficarem presas na sua armadura, mas com alguma dificuldade conseguiu chegar ao seu destino. Era uma sala escura, com iluminação praticamente nula para alem das incontáveis velas que davam ambiente sinistro á sala, em todos os recantos podiam encontrar-se estantes repletas de livros e de reagentes mágicos, mas numa mesa afastada e encostada a uma das paredes estava uma mulher sentada num pequeno banco. A Alexandra dá dois passos antes dos seus olhos habituarem-se á ténue luminosidade, podendo nesse instante analisar cuidadosamente a imagem que se encontrava diante dela. Três livros levitavam em torno da mulher, que aparentemente os fazia mover por magia, fazendo-os trocar de lugar e mudar de pagina simplesmente com pequenos gestos das suas mãos pelo ar, a mulher em si, tinha longos, volumosos cabelos negros que banhavam o chão, apanhados apenas no seu extremo, fazendo-a parecer como uma capelo, o seu corpo tinha sido abençoado com uma silhueta perfeita, pouco coberta por um corpete e uma saia extremamente justos, enquanto que a sua pele tinha a cor deliciosa de leite e a sua cara encontrava-se maquilhada realçando-lhe os lábios e os olhos e escondendo as poucas imperfeições que o tempo lhe podia ter causado, era sem duvida mais velha que a Alexandra demonstrando essa maturidade tanto no olhar como na beleza de adulta. Enquanto a Alexandra se aproximava, ela move ligeiramente a cabeça e o seu olho castanho corta o ar fitando a Alexandra, uma luz brilhava dentro dele que fez a guerreira questionar-se, com um arrepio na espinha, se era das velas em volta, ou se era um fogo interior. A mulher acabou por cortar o olhar e com a mesma energia com que fazia os livros movimentar, fechou-os e colocou-os em cima da secretaria. Ela ergue-se com toda a suavidade de uma gentil donzela, mas os seus olhos tinham um desdém e uma frieza nunca antes vistas por a Alexandra. Aproximando-se silenciosamente, com os seus delicados pés pisando a pedra fria da sala, a mulher olha a rapariga que tinha sido mandada para si de cima a baixo, os seus lábios vermelhos contorcem-se enquanto fazia juízo daquela que se encontrava perante ela, até que por fim ela corta o silencio com uma voz altiva. - Então tu és a enviada do Rei, esperei por melhor. A Alexandra ficou pálida com a afirmação, era a primeira vez que ela falava com realeza e sempre esperou que embebessem o seu veneno em mel antes de o cuspir para o seu alvo, pelo menos era assim que ela tinha ouvido dizer, que usavam palavreado caro para mesmo que dissessem a pior das mentiras, continuasse a soar a uma bela melodia. No entanto ela pode comprovar que esta não era bem assim, pois esta cascavel não tinha vergonha de mostra as suas presas. - Não sei se estás informada sobre o teu trabalho. Diz alguma coisa rapariga. Por segundos o sorriso da condessa desapareceu por entre lembranças de historias contadas e temores do futuro, mas dispensando eles comos historias contadas por velhas assustadas para arreliar os mais novos, ela devolveu o sorriso á sua cara e prosseguiu: - Tens um belo nome Alexandra…. Agora, queres conhecer a tua protegida? A Condessa sai pelo mesmo sitio que a Alexandra entrou, mas consegue dominar o pequeno corredor com muito mais agilidade, deixando a protectora da sua filha uns passos para trás ainda a debater-se com os cortinados de seda. Já outro lado a Condessa dispensou o guarda e prosseguiu o seu caminho no momento em que a sua companhia conseguiu passar pelo pequeno corredor, subiram uma escadaria que levou a uma localização ainda mais clara com as paredes pintadas de branco, reflectindo todo o esplendor da luz. Até que no fim da caminhada a Condessa bateu a uma porta. - Está aberta. – Respondeu uma voz abafada. O quarto era o que se podia esperar de uma menina que lentamente transformava-se em mulher, com vários bonecos de pano arrumados nos cantos, vários livros em diversas estantes, vestidos espalhados por todo o quarto e por debaixo de uma janela, de onde o sol mostrava todo seu esplendor, estava uma cama onde por debaixo dos seus imaculados lençóis brancos uma figura remexia lentamente. - Desculpa acordar-te filha, mas chegou a tua protectora. A Condessa fez uma pequena vénia á Alexandra, despediu-se da filha e abandonou o quarto. A Alexandra começava a sentir os medos iniciais a ressurgir, tinha medo do que uma criança mimada pudesse fazer a ela pensando que não passava de mais nada do que um servo, ou ainda pior, um boneco que ela poderia maltratar cruelmente, mas ao menos reconfortava-se com as palavras que a mãe tinha dito. De repente, um grande e belo olho espreita por entre os lençóis, tinha a cor da sua mãe apesar era provido de uma doçura de traço que a Condessa não mostrava alguma vez ter tido. Cheia de energia e juventude a uma levanta-se apenas para voltar a sentar-se na cama, que, para o espanto de Alexandra, já se encontrava vestida. Era uma jovem bastante bela e desenvolvida para sua idade, tinha herdado a beleza da sua mãe, mas também tinha traços bastante únicos que possivelmente proviriam do pai, ou até mesmo de si própria, não parecia ir tornar-se tão alta quanto a mãe, mas a sua beleza, firmeza de corpo e ar afável certamente valeriam mais que esse tamanho perdido na arvore da família. Com um sorriso ela observou a rapariga loira coberta de armadura que se encontrava perante ela, enquanto remexia e retirava um livro, que se encontrava enrolado por entre os lençóis, que depois colocou no colo. - Como é o teu nome? – Perguntou a pequena rapariga enquanto lambia o dedo para folhear o livro.
Filhas do Corvo Negro
- Não há, razão para estar, é isso que queres dizer Kolle?
- Não. – Responde rapidamente o rapaz – Até pode haver, mas se fosse qualquer um de nós, estaria a dar pulos de felicidade.
- Eu não sei se te conseguia imaginar a dar pulos de alegria. – Contraria ela numa risada. – Mas não acredito que fui eu escolhida de entre tantos.
- Tu foste escolhida e devias estar feliz por não ter sido eu.
- Pois, mas não fostes.
- E sabes porquê? – Interroga Kolle com um olhar triunfante.
- Diz-me, já que estás tão seguro.
- Porque, pelo que ouvi, vais ser guarda-costas de uma mulher. Quem diz mulher diz rapariga é claro.
- Não, não senhora, ainda não fui informada. – Fala a Alexandra ainda um pouco assombrada.
- Estou a ver. – Continuou a mulher agora com um sorriso a crescer-lhe na cara. – Pois bem, é simples, fostes chamada aqui para proteger a minha filha. Não terás outra tarefa para alem dessa. Compreendido?
- Sim senhora. – Afirmou a Alexandra fazendo o sorriso da, agora sua patroa, crescer.
- O meu nome é Elisa, Elisa Rawen, Condessa de Allar e posso saber o teu?
- Alexandra, Alexandra Walven.
- Com todo o gosto Condessa.
- Não faz mal mãe, diz para ela entrar que eu já me levanto – Respondeu assim a sua filha com a voz pregada de sono.
- Ouve bem rapariga, vou deixar-te aqui para vocês se conhecerem melhor, mas se ela te der algum problema não hesites em usar força. – Murmurou Elisa para a Alexandra silenciando-se por uns segundos enquanto o seu frio olhar cravou-se no vulto da sua filha, abanou a cabeça como se desaprovasse de algo e por fim continuou. – Mas se quiseres também me podes chamar, sabes onde estou.
- Já. – Respondeu a Alexandra vendo pela porta entre aberta a Condessa a descer as escadas.
- Ainda bem.
- Alexandra…
- Olá Alexandra. – Cumprimentou a condessinha, levantando-se num pulo e fazendo uma vénia. – O meu nome é Elisia, muito prazer.
Escrito por Vargtid