2:55 PM A alvorada anunciava-se com os primeiros raios de sol a trespassar timidamente as copas das árvores, todos os trabalhadores e mercadores espalhavam-se pelos recantos da praça. Mercadores do reino do sul traziam seus produtos exóticos, os elfos do norte vendiam os seus produtos mágicos e os poucos mercadores orcs vendiam as mais belas peles e saborosas carnes dos mais bem tratados animais de criação. Os cheiros misturavam-se com o fresco ar da manhã criando um aroma embriagador que envenena todas as mulheres e moças com uma enorme ansiedade por comprar algo que fizesse-las sentir tão bem. Os mexericos também não faltavam, desde os casamentos dos nobres, até ás movimentações do exército e alguns receios, misturados com fantasia, do misterioso norte. Mas havia um evento que estava na boca de todos, desde homens na taberna a terem as suas conversas, às coscuvilheiras habituais a gritarem de casa para casa deixando a localidade toda a saber, ou até as mulheres nas compras a falar com suas filhas e amigas e também nas bocas de alguns bandidos, que não tendo muito mais para falar, ou porque planeavam algo importante para a noite em questão. E essa era a noite que chegaria no próximo dia, noite em que a filha dos condes de Allar faria o seu decimo sexto aniversario e tal acontecimento significava que as ruas se encheriam de perfumes, que tanto belas donzelas e outras não tão belas como mais ou menos requintados cavalheiros encheriam as ruas, o vinho iria fluir abundantemente, as refeições seriam constantemente servidas e no desejo de muitas caras escondidas em becos escuros e tapadas por entre a multidão, de que a guarda da cidade se desleixasse, para nem que fosse por um instante, o crime aumentar. Mas desenganem-se aqueles que queriam criar caos na pacifica cidade, o Rei e o Conde tinham assegurando-se que não haveria distúrbios, de qualquer tipo, nem causados por bandidos nem por nobres atrevidos e esta segunda tinha facilitado dois planos completamente distintos e um terceiro que nenhum dos conspiradores iniciais nunca sonhariam. Como previsto, o início do seu plano começou a decorrer como tinham planeado. O Rei entregou uma carta a um dos seus mensageiros com cuidadas instruções para o mestre de armas para ele escolher de entre os soldados, que tinham passado pelo seu treino, um para guarda-costas para a filha dos condes desta cidade, confiante que a sua protegida seria escolhida para tão enorme honra. E assim sucedeu, o mensageiro, fogoso por mostrar o seu excelente desempenho entregou prontamente a mensagem ainda o relógio da praça de mercado, não apontara para as oitos horas. O mestre de armas leu o pedido atentamente e rapidamente decidiu quem iria mandar, como os dois conspiradores tinham previsto a Alexandra tinha sido escolhida. A notícia foi recebida com alguma apreensão por parte dela, mas os seus companheiros rapidamente mostraram uma satisfação enorme e alguma inveja no facto de não ter sido um deles o escolhido. Mas um dos soldados nota no incómodo da escolhida e apesar de só terem falado poucas vezes ele tenta a sua sorte. - Porque é que não me surpreende que tu estejas apreensiva? O pouco estimulo que a Alexandra tinha em relação ao seu primeiro trabalho é deitado por terra conforme o Kolle profere aquelas ultimas palavras. Como se não chegasse a hesitação que ela tinha, ela ainda iria servir uma menina mimada que, se não soubesse ou estivesse habituada a guarda-costas ainda a trataria como qualquer outra criada o que era uma perspectiva bastante desagradável para a Alexandra. Mas a palavra do Rei era ordem e negar este pedido, tão honrado, como os seus colegas diziam, nunca deveria acontecer. E então, com a cabeça pesada e algo contrariada a Alexandra abandona os seus companheiros pela primeira vez. Ela abre o portão da paliçada e olha em sua volta, à quatro anos que ela não pisava a calçada das estradas de Allar – sem ser em marcha ou para fazer algum treino no exterior – a sensação era libertadora, pela primeira vez ela sentia a plenitude de tudo o que rodeava o campo. Pessoas a andar por todos os lados, os aromas, os sons, uma ou outra carroça que passava por perto, as crianças a fazer as suas brincadeiras, tudo isto invadia-a dessa nova sensação que não sentia desde que começou o seu treino. Mas quando o portão fecha atrás de si, um ligeiro peso cai em seu coração e pela primeira vez sentiu o verdadeiro peso do pequeno ritual de passagem que ela tinha sofrido. Caminhando pelas ruas cheias com uma espada na cintura, uma lança no ombro, um escudo nas costas e o seu cabelo com um tom peculiar de amarelo a balançar no ar – cabelo este que mais fazia lembrar o dos piratas que habitavam as ilhas do sul – ela podia ser confundida com um dos muitos mercenários que procuravam trabalho nesta terra, se não fosse pela majestosa couraça de Allar e a bela capa azul com a bandeira bordada no seu extremo. Seguindo as suas ordens ela dirigiu-se á entrada do grande palácio dos Condes, lá, entregou a um dos guardas que se encontrava no portão o pergaminho com a marca do Rei, que após observar com cuidado pede á guerreira para aguardar, enquanto ele desaparece pela a porta de entrada do palácio. Passado uns minutos de espera, o guarda volta a aparecer e dá sinal para a Alexandra o seguir. Dentro do palácio ela podia observar com todo o detalhe os corredores por onde passavam, o chão era feito de madeira bem encerada, tapetes feitos pelos mais dotados artesãos eram coloridos e com vários delicados padrões, por todos os corredores haviam várias plantas em jarras de porcelana pintadas com detalhes que ela nunca antes tinha visto e pelas janelas entrava toda a luz dourada do sol quente da manhã. A sua caminhada pára assim que chegam a uma passagem estreita tapada por vários mantos de seda que não deixava ver o seu interior. O guarda ordenou á Alexandra que entrasse e ficou de plantão à entrada enquanto ela continuou por aquela passagem, as cortinas e mantos não paravam de se intrometer á sua frente e ficarem presas na sua armadura, mas com alguma dificuldade conseguiu chegar ao seu destino. Era uma sala escura, com iluminação praticamente nula para alem das incontáveis velas que davam ambiente sinistro á sala, em todos os recantos podiam encontrar-se estantes repletas de livros e de reagentes mágicos, mas numa mesa afastada e encostada a uma das paredes estava uma mulher sentada num pequeno banco. A Alexandra dá dois passos antes dos seus olhos habituarem-se á ténue luminosidade, podendo nesse instante analisar cuidadosamente a imagem que se encontrava diante dela. Três livros levitavam em torno da mulher, que aparentemente os fazia mover por magia, fazendo-os trocar de lugar e mudar de pagina simplesmente com pequenos gestos das suas mãos pelo ar, a mulher em si, tinha longos, volumosos cabelos negros que banhavam o chão, apanhados apenas no seu extremo, fazendo-a parecer como uma capelo, o seu corpo tinha sido abençoado com uma silhueta perfeita, pouco coberta por um corpete e uma saia extremamente justos, enquanto que a sua pele tinha a cor deliciosa de leite e a sua cara encontrava-se maquilhada realçando-lhe os lábios e os olhos e escondendo as poucas imperfeições que o tempo lhe podia ter causado, era sem duvida mais velha que a Alexandra demonstrando essa maturidade tanto no olhar como na beleza de adulta. Enquanto a Alexandra se aproximava, ela move ligeiramente a cabeça e o seu olho castanho corta o ar fitando a Alexandra, uma luz brilhava dentro dele que fez a guerreira questionar-se, com um arrepio na espinha, se era das velas em volta, ou se era um fogo interior. A mulher acabou por cortar o olhar e com a mesma energia com que fazia os livros movimentar, fechou-os e colocou-os em cima da secretaria. Ela ergue-se com toda a suavidade de uma gentil donzela, mas os seus olhos tinham um desdém e uma frieza nunca antes vistas por a Alexandra. Aproximando-se silenciosamente, com os seus delicados pés pisando a pedra fria da sala, a mulher olha a rapariga que tinha sido mandada para si de cima a baixo, os seus lábios vermelhos contorcem-se enquanto fazia juízo daquela que se encontrava perante ela, até que por fim ela corta o silencio com uma voz altiva. - Então tu és a enviada do Rei, esperei por melhor. A Alexandra ficou pálida com a afirmação, era a primeira vez que ela falava com realeza e sempre esperou que embebessem o seu veneno em mel antes de o cuspir para o seu alvo, pelo menos era assim que ela tinha ouvido dizer, que usavam palavreado caro para mesmo que dissessem a pior das mentiras, continuasse a soar a uma bela melodia. No entanto ela pode comprovar que esta não era bem assim, pois esta cascavel não tinha vergonha de mostra as suas presas. - Não sei se estás informada sobre o teu trabalho. Diz alguma coisa rapariga. Por segundos o sorriso da condessa desapareceu por entre lembranças de historias contadas e temores do futuro, mas dispensando eles comos historias contadas por velhas assustadas para arreliar os mais novos, ela devolveu o sorriso á sua cara e prosseguiu: - Tens um belo nome Alexandra…. Agora, queres conhecer a tua protegida? A Condessa sai pelo mesmo sitio que a Alexandra entrou, mas consegue dominar o pequeno corredor com muito mais agilidade, deixando a protectora da sua filha uns passos para trás ainda a debater-se com os cortinados de seda. Já outro lado a Condessa dispensou o guarda e prosseguiu o seu caminho no momento em que a sua companhia conseguiu passar pelo pequeno corredor, subiram uma escadaria que levou a uma localização ainda mais clara com as paredes pintadas de branco, reflectindo todo o esplendor da luz. Até que no fim da caminhada a Condessa bateu a uma porta. - Está aberta. – Respondeu uma voz abafada. O quarto era o que se podia esperar de uma menina que lentamente transformava-se em mulher, com vários bonecos de pano arrumados nos cantos, vários livros em diversas estantes, vestidos espalhados por todo o quarto e por debaixo de uma janela, de onde o sol mostrava todo seu esplendor, estava uma cama onde por debaixo dos seus imaculados lençóis brancos uma figura remexia lentamente. - Desculpa acordar-te filha, mas chegou a tua protectora. A Condessa fez uma pequena vénia á Alexandra, despediu-se da filha e abandonou o quarto. A Alexandra começava a sentir os medos iniciais a ressurgir, tinha medo do que uma criança mimada pudesse fazer a ela pensando que não passava de mais nada do que um servo, ou ainda pior, um boneco que ela poderia maltratar cruelmente, mas ao menos reconfortava-se com as palavras que a mãe tinha dito. De repente, um grande e belo olho espreita por entre os lençóis, tinha a cor da sua mãe apesar era provido de uma doçura de traço que a Condessa não mostrava alguma vez ter tido. Cheia de energia e juventude a uma levanta-se apenas para voltar a sentar-se na cama, que, para o espanto de Alexandra, já se encontrava vestida. Era uma jovem bastante bela e desenvolvida para sua idade, tinha herdado a beleza da sua mãe, mas também tinha traços bastante únicos que possivelmente proviriam do pai, ou até mesmo de si própria, não parecia ir tornar-se tão alta quanto a mãe, mas a sua beleza, firmeza de corpo e ar afável certamente valeriam mais que esse tamanho perdido na arvore da família. Com um sorriso ela observou a rapariga loira coberta de armadura que se encontrava perante ela, enquanto remexia e retirava um livro, que se encontrava enrolado por entre os lençóis, que depois colocou no colo. - Como é o teu nome? – Perguntou a pequena rapariga enquanto lambia o dedo para folhear o livro.
Filhas do Corvo Negro
- Não há, razão para estar, é isso que queres dizer Kolle?
- Não. – Responde rapidamente o rapaz – Até pode haver, mas se fosse qualquer um de nós, estaria a dar pulos de felicidade.
- Eu não sei se te conseguia imaginar a dar pulos de alegria. – Contraria ela numa risada. – Mas não acredito que fui eu escolhida de entre tantos.
- Tu foste escolhida e devias estar feliz por não ter sido eu.
- Pois, mas não fostes.
- E sabes porquê? – Interroga Kolle com um olhar triunfante.
- Diz-me, já que estás tão seguro.
- Porque, pelo que ouvi, vais ser guarda-costas de uma mulher. Quem diz mulher diz rapariga é claro.
- Não, não senhora, ainda não fui informada. – Fala a Alexandra ainda um pouco assombrada.
- Estou a ver. – Continuou a mulher agora com um sorriso a crescer-lhe na cara. – Pois bem, é simples, fostes chamada aqui para proteger a minha filha. Não terás outra tarefa para alem dessa. Compreendido?
- Sim senhora. – Afirmou a Alexandra fazendo o sorriso da, agora sua patroa, crescer.
- O meu nome é Elisa, Elisa Rawen, Condessa de Allar e posso saber o teu?
- Alexandra, Alexandra Walven.
- Com todo o gosto Condessa.
- Não faz mal mãe, diz para ela entrar que eu já me levanto – Respondeu assim a sua filha com a voz pregada de sono.
- Ouve bem rapariga, vou deixar-te aqui para vocês se conhecerem melhor, mas se ela te der algum problema não hesites em usar força. – Murmurou Elisa para a Alexandra silenciando-se por uns segundos enquanto o seu frio olhar cravou-se no vulto da sua filha, abanou a cabeça como se desaprovasse de algo e por fim continuou. – Mas se quiseres também me podes chamar, sabes onde estou.
- Já. – Respondeu a Alexandra vendo pela porta entre aberta a Condessa a descer as escadas.
- Ainda bem.
- Alexandra…
- Olá Alexandra. – Cumprimentou a condessinha, levantando-se num pulo e fazendo uma vénia. – O meu nome é Elisia, muito prazer.
Escrito por Vargtid
9:30 AM Maquinações Observando a jovem rapariga o Rei franziu a sobrancelha, para alem de não conseguir imaginar que uma rapariga tão simples albergasse tanto poder, também surgia um tremendo fascínio pela sua beleza. Não era como todas as outras aves enfeitadas, quase sufocando em cosméticos, escondendo todos os seus defeitos e mostrando a sua plumagem para conseguir uma ascensão de poder à sua família, que deambulavam pela corte dos nobres – especialmente focado neste assunto também devido aos mexericos do povo pelo facto do Rei mostrar uma certa falta de espírito em arranjar um sucessor – tamanha beleza e fogo em tão simples criatura, relembrava-o das suas origens e por entre pensamentos nublados, poucas palavras conseguiu proferir. - Filha de camponeses…? O Rei permaneceu pensativo continuando a passar os seus dedos incessantemente pela coroa e o bruxo a seu lado começou a dilacerar o olhar de Iaden tentando perceber a razão que perturbava tanto o seu sócio conspirador. E apesar de não conseguir compreender o que o Rei pensava achou melhor entrevir, qualquer deslize poderia desmoronar o seu cuidadosamente planeado estratagema. - É de tremenda importância que ela seja mantida fora de qualquer perigo para o nosso plano se manter. O bruxo solta uma gargalhada gélida e curta voltando a desaparecer por entre as cortinas deixando o Rei sozinho na grande sala de trono. Este, soltou um grande suspiro com uma certa fúria pois estes serões repletos de etiqueta como de falsidades nunca acabavam sem antes ele possuir uma forte dor de cabeça e acabando por muitas vezes ausentar-se, desculpando-se com assuntos pendentes ou até mesmo indisposição, no entanto teria de sofrer um pouco essas cortesias pois como rei havia obrigações a cumprir. Hesitante, o Rei sai da sala de trono e é acompanhado por dois guardas, que se encontravam á porta, pelos corredores frios do castelo. Por fim os dois guardas abrem as portas do grande salão e o Rei entra para se dedicar ás fúteis necessidades da corte. A noite já se tinha ocupado o seu lugar e fora do castelo e longe de todos os sons de festa e regozijo, iluminado apenas pela luz da lua e poucas velas, o campo de soldados de Allar já só tinha um punhado de verdes soldados desorganizados que tratavam de seus diversos e banais problemas. A Alexandra estava numa das várias pequenas casas do campo a afiar as suas armas e por pedidos de outros, por serem preguiçosos ou por estarem a efectuar outras tarefas não o podiam fazer eles próprios, ela tinha encarregando-se também de suas armas. Enquanto o esmeril rodava, a lamina descansava sobre ela fazendo as faíscas saltar, os seus olhos perdiam-se nos pequenos clarões e ela pensava no seu futuro, apesar de ser uma rapariga forte ela temia sempre de algo que ela não conseguisse lutar contra, algo que a enfraquecesse. E enervava-a, que ao fim deste tempo todo de treino ela começava a ter estas dúvidas. - Ei Alex. – Grita uma voz da pessoa que abria a porta. A Alexandra trocou de arma e continuou a afiar, enquanto mandava um sorriso maldoso á Cali que corava cada vez mais. Por mais que qualquer um tentasse o olhar de Alexandra fazia sempre uma pessoa ceder a qualquer pergunta, mas mesmo nesta altura ela teve duvidas se a resposta da sua amiga era verdadeira ou não. - Chama-me parva, mas ás vezes desejava ir a um baile da corte, estar com homens bonitos e elegantes, ser cortejada essas coisas que uma rapariga deseja. Soltando um enorme riso a Alexandra deixa-se cair do banco onde afiava o equipamento, riso que é rapidamente cortado pela dor que ela sente ao bater com a cabeça no chão, mas mesmo assim continua com um sorriso, algo sofrido, enquanto que a Cali metia a mão em frente da cara, tentando ocultar também o seu sorriso. - É o Eirvan não é? – Ela fica um certo tempo no chão a olhar para a Cali mas encontra que a resposta em sua cara era muito obvia. - Eu compreendo, acredita que sim, ele é engraçado, bonito, forte, independente e sem esquecer da linhagem nobre e só não está cheio de raparigas atrás dele porque nunca foi a um único baile do seu pai. Acho que devias aproveitar. A Cali fica em silencio, ardendo por dentro e ao mesmo tempo sentido calafrios a percorreram-lhe o corpo, não só por o que a Alexandra disse estar certo, mas por parecer que ela lhe tinha lido a mente. Apesar de não conhecê-la á tanto tempo como Eirvan ou o Victor, a Cali já tinha ganho uma afinidade por ela, no entanto as vezes a Alexandra acabava por conseguir assusta-la. Acabando de afiar as armas, a Alexandra pegou numa espada e ergueu-a em direcção da Cali. - É a espada dele. Levas tu ou levo eu? Ela passou da linha da porta e pôs a mão por cima da de Alexandra ficando também a segurar o cabo da espada, os seus olhos cruzaram-se e naquele momento ambas tentavam perceber o que a outra pensava. Talvez fosse pela suave aragem do ar nocturno ou bela iluminação lunar mas naquele momento algo despertou fazendo a Cali largar o cabo e responder a Alexandra. - Leva-o tu e fica descansada, eu entrego o resto das armas. Puxando a franja para trás a Cali agarrou nos braços da Alexandra, ajudando-a a levantar-se, quase perdendo o equilíbrio a Alexandra cai em cima do corpo da sua amiga que a segura num forte abraço suspirando-lhe ao ouvido. - Por favor, não digas nada estúpido. Ambas sorriram e prosseguiram os seus caminhos, a loira pegou naquela única espada e levou-a ao seu dono, enquanto a rapariga de cabelo rubro começava a arrumar as armas. Encontrando o Eirvan no seu local habitual a Alexandra aproxima-se oferecendo-lhe o cabo da espada. Ele pega nela e observa a lamina passando ao mesmo tempo a mão por ela. - Fizestes um bom trabalho miúda. Eirvan soltou uma grande gargalhada, fazendo em seguida sinal para a Alexandra se sentar ao seu lado e conforme ela sorriu e acenou com a cabeça ele não pode deixar de reparar que com o luar a bater-lhe no rosto, o azul dos seus olhos parecia algo irreal, brilhantes com o tom de dois azuis irmãos sóis. Ele abana a cabeça e volta a olhar para ela, esse brilho já tinha passado mas já não era a primeira vez que durante a noite ele sentia ou via algo estranho na presença dela. - O que queres de mim. – Corta a Alexandra. Eirvan fica um pouco tenso, assim que a Alexandra decidiu puxar o tema, mostrando que pelo meio daquelas brincadeiras e um curioso ódio, eles tinham escondido algo mais profundo. E assim, a conversa estende-se durante a noite, sobre o treino, as amizades e sobre algo mais intenso. No entanto, de volta á sala de banquete e no meio de frutas e carnes exóticas, por entre serviços de mesa caros e requintados, por entre bons modos, gente bonita e refinado ambiente, o Rei perdia-se por entre conversas que já tinha escutado vezes sem conta, ditas por um ou outro nobre e até pelos mesmos repetidamente. Alguns mencionava mos bandidos que empestavam as terras, um maior numero queixava-se dos perigos nas fronteiras a este e a norte e como se não bastasse a inquietação em relação á ameaça desconhecida do norte, um assunto antigo voltava: o medo que os nobres tinham das defesas de Norwin, que ao contrario do resto do reino que tinha nascido por expansão, os habitantes do norte tinham sido anexados por um antigo rei e eles nunca tinham suscitado grande confiança em relação aos seus compatriotas. Mas os piores queixumes, se bem que um pouco dissimilados em conversas banais, eram o facto de o rei ainda não ter dado um herdeiro para a coroa de Allar e sempre que surgia esse tema, o nobre em questão aconselhava uma filha sua como óptima pretendente. Estas conversas eram as que mais provocavam inquietação e fúria no Rei, mas como bom sobrano e anfitrião, ressentia esses sentimentos para si próprio e respondia com toda a sua graça tentando sempre não se comprometer. Foi no meio desta discussão que um nobre, que já tinha caído nas boas graças do rei devido á sua bravura na campanha militar que o rei tinha levado a cabo, surgiu com um tema que o rei a principio temeu, mas como era chegado a ele, deu-lhe o beneficio da duvida e assim surgiu a conversa: - Peço-lhe mil perdões majestade mas... - Pois bem, como já foi informado até pelo meu próprio convite, daqui a dois dias a minha filha fará 16 anos, idade para ser cortejada pelos nobres. O Rei começou a temer a o rumo da conversa mas o seu temor desvaneceu conforme a o conde contínuo. - Agora, eu tenho a noção que a minha filha, como a posição que ela garante, para alem de pela sua enorme beleza, é muito cobiçada por várias pessoas e por isso venho pedir-lhe um favor. Mais tarde quando todos tinham abandonado o castelo, o Rei fez planos com o seu conselheiro para os seus próximos passos. Já tinham encontrado a segurança que necessitavam para o seu objecto tão precioso e para Iaden teria algo mais preparado sem o conhecimento do seu chamado, amigo.
- Sim. – Confirmou o seu velho e nefasto amigo. – a sua mãe morreu á nascença, acredito que a dadiva de Dária tenha passado da mãe para a filha no momento que ela pereceu.
- Estou a ver…
- Tens razão, com as fronteiras ameaçadas como estão é mais que certo que a qualquer altura estes recrutas sejam requisitados pelos generais para a defesa. Mas depois trataremos disso… – o Rei levantou-se colocando a coroa em sua cabeça, a espada na sua bainha e continuou com um tom irónico – hoje ainda tenho de ir agraciar os nobres com a minha presença no banquete.
- Olá Cali – responde a Alexandra reconhecendo-a logo pela voz e também pela franja laranja e selvagem que se recusava a permanecer entrançada. – Viestes confirmar se eu trabalhava?
- Não, só vim fazer-te companhia, visto que nenhum dos rapazes se digna a faze-lo. – Ela solta uma pequena gargalhada de seguida, dando á Alexandra uma melhor percepção do que a companhia dela indicava.
- Oh boa, qual foi desta vez Cali?
- O que é que tu estás ai a falar? – Disfarça a Cali com a sua cara a adquirir um tom vermelho.
- Não fiz mais que a minha obrigação... – Ela faz uma pequena pausa virando-lhe as costas e respondendo-lhe enquanto o observava por cima do ombro. -... Miúdo.
- Nada, apenas pensei que quisesses falar um pouco.
- Parece que muitas pessoas querem falar comigo hoje.
- O pequeno discurso que destes ao jantar tocou-nos Alex. – Constatou Eirvan. – Tens razão.
- No quê? – Perguntou intrigada.
- Nós somos soldados agora e qualquer dia podemos estar no lado errado de uma lança...
- Oh Eirvan, de todas as pessoas, tu és a que eu menos esperava que fosse falar disso!
- Por favor, não me interrompas. – Disse ele sorrindo com a exclamação da agora guerreira. – Eu só te queria dizer que, aconteça o que acontecer podes contar com a minha amizade. Só minha não, porque aposto que a ruivinha e o Victor concordariam comigo.
- Eu sei, nós sempre fomos muito juntos. Mas, falando em ruivinha…
- De todas as pessoas que conheço Conde Rawen, é a ultima que eu consigo ver a usar cortesias. – Interrompeu o Rei. – Salte logo para o assunto.
- Continue...
- Venho pedir se pode dispensar alguém da sua guarda para servir de guarda-costas á minha filha.
- Acho que sei da pessoa ideal. – Disse o Rei esfregando a sua curta barba após a ponderar um pouco.
Escrito por Vargtid
5:45 AM Um dos últimos dias de uma era punha-se sobre o horizonte de Allar, as searas douradas de trigo balançavam com uma suave e fresca brisa que anunciava a chegada da noite, as muralhas brancas de Allar reflectiam a luz minguante do dia que transformava o vasto azul num tom rosa que irrompia em chamas assim que se encontrava com o dourado sol que se punha. No interior da cidade, os mercadores preparavam-se para fechar para a noite, nas tabernas e estalagens acendiam-se tochas e pequenos candeeiros a óleo que alumiavam os interiores escuros com a luz solar desvanecendo e todas as pessoas que levavam a sua vida atarefada na cidade e campos nos arredores, voltavam para as suas casas na província ou na zona residencial da cidade. Mas no extremo ocidente da cidade muitos cidadãos encontravam-se com pouca vontade de recuar para suas casas. Pois para alem da pequena paliçada que se erguia após um pequeno jardim da cidade, filhos, netos, sobrinhos e até alguns pais encontravam-se no campo poeirento da academia de Allar, centenas de novos recrutas estavam prontos para entrar no fiel exercito em serviço do rei. - Alex, apanha. Grita uma figura do local de onde a Alexandra tentava chegar. E ela estende a mão para apanhar uma caneca em meio voo. Com uma mão firme na caneca ela dá um golo e com a dificuldade tentando passar por entre as armaduras e tentando não sujar a sua capa senta-se no seu lugar habitual. Á sua frente estava um homem alto, mesmo sentado dava um ar do seu tamanho, tinha cabelo preto, raso como barba acabada de fazer, possuía uma viçosa pêra que esfregava sempre que estava mais pensativo, os seus olhos castanhos encontravam-se como se estivessem dentro de duas covas que se ele baixasse a sua cabeça demais deixavam-se de ver. Á sua esquerda estava uma rapariga com uma longa trança ruiva, e espalhada por ela varias pequenas facas, a couraça fazia-a parecer um pouco mais forte do que era, apesar de ter uma cara algo para o redonda e de criança, as feições do seu corpo eram bastante franzinas, mas não demais pois manejava uma lança como ninguém, tinha grandes olhos verdes que eram constantemente estorvados pelo cabelo alaranjado que ela não conseguia prender bem, a sua pele era clara mostrando uma grande quantidade de sardas nas suas bochechas. E finalmente na no lado oposto à Alexandra, estava um rapaz que devia estar nos seus 18 anos mas já tinha ar de ser bastante mais velho, este tinha sempre uma sombra de barba por fazer e o seu cabelo castanho claro tinha quase o mesmo tamanho que o da Alexandra, tinha uma pequena cicatriz no queixo e este rapaz tinha sido quem lançou a caneca contra a Alexandra a quem ela ao sentar-se, com a mão que agarrava na caneca aponta-lhe o indicador e com um sorriso diz-lhe: - Só á primeira é que me acertastes com isto na cabeça, nem sei porque tentas. Para alguém com um aspecto tão rude como o de Victor, muitas vezes ele conseguia ser aquele que mantinha a calma e a ordem no grupo. Dizia sempre o que era preciso, na altura certa, nunca metia-se em problemas e tinha sempre um sorriso afável na sua cara. - Têm sorte do Victor estar aqui. – Brinca Alexandra. A Alexandra deixa escapar uma pequena risada que cobria as duas situações: tanto o queixume de Victor, como a pequena indisposição que tinha causado ao seu amigo. No entanto seguindo aquele momento de boa disposição os seus olhos azuis como o mais brilhante dos céus, ficam pasmado a olhar para o seu prato em seguida a ter feito o primeiro corte na carne. Um estranho arrepio apoderou-se dela observando a carne que não tinha sido pouco mais que aquecida e o seu carmim espalhava-se pelo prato, com um hipnotizaste terror ela elevava o pedaço acabado de cortar a linha do seu olhar, entretanto, os seus companheiros começavam a notar na distancia que Alexandra estava a ter da realidade, mas nada disseram, pois sabiam que apesar da sua personalidade activa e fervilhante havia nela um lado que implorava por uma calma e sossego que ela nunca poderia dar e dessa condição surgiam os seus momentos de reflexão. - Já viram o nosso futuro? – Pergunta ela rodando apenas o garfo, mas não obtendo resposta dos seus companheiros que apesar do silêncio estavam atentos a todos os seus pequenos movimentos. É então que poisando o garfo no prato e olhando para os três continuou. – Sangue, quer seja do nosso inimigo, quer seja do nosso. Vai acabar tudo em sangue. Com estas palavras ditas, todos eles sentem um pequeno arrepio pela espinha. Estas tão destinadas premonições, causariam sempre má disposição em qualquer um excluindo os mais veteranos, valentes e corajosos soldados. Apesar de nenhum deles demonstrar o contrario a verdade é que excluindo Victor, nenhum antes tinha feito outro homem sangrar e morrer e o dia da primeira morte aproximava-se. Mesmo assim, não querendo o momento estragado por parvoeiras do futuro, Eirvan começou numa berraria sem sentido a que ela respondeu como um sorriso nos lábios, fazendo com que essas crises se esquecessem e que tudo voltasse á calma e descontracção daquela que seria a primeira noite como soldados. No entanto, continuando para este do campo, erguia-se o grande castelo de Allar os seus torreões imponentes nunca tinham tombado e tinham sempre defendido as suas pessoas de todo o perigo. No interior o Rei Iaden – não menos majestoso que o seu imponente castelo – sentava-se no seu trono, vestido com um delicado vestido de seda, digno de apenas o mais majestoso dos Reis, segurando com a sua mão na espada dos reis, símbolo da sua nobre ascendência e com a outra passava com os dedos nos contornes da coroa que descansava – ou talvez quem descansava era ele próprio do seu peso – num dos braços do trono. Apesar de que, com coroa ou sem coroa o peso do reino continuava a cair-lhe sobre os ombros e à sua volta, mercadores, magos, nobres e outras pessoas importunavam-no com os seus mesquinhos problemas. - Senhor, rogo-vos que apele o nosso pedido, a grande praça anda a ser cada vez mais vandalisada. – Queixava-se um mercador. Incomodados e com a sensação que os seus problemas iriam persistir, mas temível era a voz do Rei, não tão temível como a sua fúria e disso todos os presentes sabiam-no bem. Então com vénias e toda a cortesia, abandonam o Rei no seu aposento. Minutos depois detrás de umas cortinas laterais ao trono, uma figura encurvada e bastante decrépita mostra-se á luz ténue das tochas que iluminavam a sala de trono, era um homem magro que um dia fora alto, mas as suas costas tinham indo encurvado cada vez mais ao longo da idade dando-lhe uma enorme corcunda, tinha um nariz pontiagudo, um cabelo grisalho mal tratado e uns olhos que mostravam nada para alem de um grande e vivo fogo de uma ambição que iria acabar por o consumir, andava lentamente sobre um cajado que se fazia ouvir á distancia. Ao chegar perto do rei colocou a sua mão enrugada em cima da de Iaden com uma certa ternura quase fraternal, mas era algo mais que isso era uma divida de á muito tempo que nunca chegaria a ser paga e então com a sua voz rouca e perigosa como o assobiar de uma cascavel perguntou-lhe: - Problemas com o reino jovem príncipe.
Maquinações
Todos eles em sentido, sem mexer um único músculo do corpo, seguiam os paços do capitão, cobertos com armaduras prateadas e capas azuis de seda. As armaduras iram enferrujar com o tempo e as capas seriam manchadas com sangue, mas a coragem não seria destruída, a honra não seria manchada e mesmo com escudos partidos, armaduras enferrujadas e as capas banhadas no seu próprio sangue, o seu ultimo suspiro seria dado a defender a sua amada terra. E assim dizia o capitão a estes novos soldados, como a todos os outros recrutas que já tinham passado por aquele empoeirado pátio. Ele sabia que muitos deles morreriam cedo, mas não tinha a noção que os tempos que se aproximavam iriam trazer essas mortes ainda mais perto. No entanto, desde o início do reino dos homens, havia um velho ditado: “A diferença de muitos encontra-se somente num único individuo.”
O nome deste indivíduo era Alexandra. Como o resto dos soldados ela encontrava-se estática como se estivesse a olhar para o vazio, os seus cabelos loiros ondulavam lentamente com a brisa que tinha chegado e as suas bochechas rosavam ligeiramente com o frio, mas os seus olhos pareciam duas chamas azuis que a mantinham quente com o orgulho que tinha em estar naquele grupo.
A noite acaba por cair e a cerimonia acabar. Os soldados voltam para dentro da messe onde tomam a sua última refeição como recrutas e como em todos os outros dias, o caos instala-se. Risos, murmúrios, o som dos talheres a embater violentamente nos pratos e aquele incessante som de dentes a mastigar e lábios a sorver.
Tentando passar por entre as mesas com os seus companheiros sentados, nunca ela tinha tido tanta dificuldade pois normalmente ninguém teria couraças vestidas, mas com dificuldade ela lá se aproximava do seu banco que tinha usado desde que tinha entrado para a academia.
- Oh, não podes culpar um rapaz por tentar. – Responde-lhe.
- Ás vezes penso que me odeias Eirvan.
- Bem minha cara eu...
- Foi uma aposta Alexandra. – Interrompe a rapariga ruiva que dava pelo nome de Cali.
- O que queres dizer com isso? – Pergunta a Alexandra franzindo o subreolho.
- Eu apostei com ele e ele quer ganhar á força.
- Bem, não é bem assim. – Discordou o Eirvan levantando o garfo e apontando para Cali, normalmente não teriam mais que uma colher e uma taça mas sendo o ultimo dia, era uma ocasião especial. – A aposta foi a seguinte: depois de, naquele bem afamado dia em que a tua cabeça interceptou a caneca que era para o Victor, a nossa Cali aqui apostou que eu não conseguia acertar-te outra vez na mesma situação.
- E está visto que eu ganhei. – Continua a ruiva.
- Vocês... – Repreende a Alexandra.
- Tens de ver Alex. – Entrevem o Victor, que até ao momento tinha estado calado apenas a beber a sua bem dita cerveja. – Eles divertiram-se, a Cali ganhou algum dinheiro extra e tu tens menos hipóteses de apanhar com uma flecha na cara.
Contaminada como sempre por esse sorriso, a Alexandra recupera um bom humor que era algo estranho nela.
- Noutras noticias: já viram isto? Último dia é que nos alimentam carne. – Diz a Cali querendo mudar rapidamente de assunto, mas ao mesmo tempo estendendo a sua mão para Eirvan pagar o que lhe deve.
- Sempre melhor que aquela maldita papa que comíamos todos os dias – Victor resmunga quase por entre dentes serrados, ao mesmo tempo que Eirvan pagava. – Todos os dias, comer aquilo tira a um homem o seu vigor.
- Isso, não é importante neste momento. – Gritava um nobre do Este. – Ogs levantam-se perto de Dortza e a cidade irá precisar defesas urgentemente majestade.
- Mas ainda não precisa e de certeza que os Orcs se livraram dessas pestes antes que se espalhe para alem do nosso território. – Respondia-lhe um velho que tinha tanto de sábio como sovina. – Sua altíssima realz...
- Silencio! – Ordena o Rei já com a sua voz soante como um rugido de um trovão numa enorme tempestade e algo enervado continuou. – Meus caros senhores, as vossas súplicas não estão a ser ignoradas e asseguro-vos que os seus problemas serão resolvidos prontamente. A mão de Viteus é longa e benevolente, mas outros assuntos requerem a sua atenção neste momento. Agora, deixem-me, pois as vossas súplicas, já não estou disposto a ouvir.
- Não ouvia isso á muito tempo. – Respondeu-lhe o Rei já com a calma restaurada.
- Já se passaram anos e não é já um príncipe, mas sim um valente Rei.
- Pára com esse silvo criatura viperina! – Apesar de parecer pejorativo, não era nada mais que um insulto de amigo. – E diz-me, como está a nossa menina?
- Bela, jovem e viva. – Respondeu a víbora destapando por debaixo do seu manto negro uma esfera cristalina que mostrava no seu interior uma rapariga vestida em couraça de soldado, de pele tão dourada como o cabelo e em seus olhos a imensidão de um oceano ainda desconhecido para muitos, que brilhava com a ignorância do futuro para alem do sangue.
Escrito por Vargtid